Igreja de Paramos

Notas históricas e descrição do exterior
       
A Igreja Paroquial de Paramos é uma das típicas igrejas regionais do século XIX (1)
       
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No entanto, outrora terão existido outras duas, inclusive, em Paramos. A primeira, que se situava onde existe actualmente o cemitério, era dos finais do século XII ou princípios do século XIII (2); ao passo que a segunda, datada dos finais do século XV, acabou por ser demolida em 1890, o que fez com que os três sinos e algumas das imagens que esta albergava fossem transferidos para o novo edifício religioso, benzido nesse mesmo ano a 4 de Setembro. (3) Quanto às obras realizadas na actual igreja paroquial dedicada a Santo Tirso e da autoria de José Maria de Lacerda, de Vila Nova de Gaia, duraram entre 1886 até 1890, como já o havíamos referido. Como a antiga igreja encontrava-se num estado ruinoso, quer o Reitor Sá Fernandes quer os seus paroquianos ajudaram-se mutuamente, o que fez com que fosse possível construir uma igreja de tal envergadura, como a que visualizamos actualmente. (3 4) No entanto para que tal acontecesse, o Reitor decidiu escolher alguns homens, que passaram a ser o seu “braço-direito”. Esses homens foram Manuel Bernardes da Silva, que foi o que se encarregou da fiscalização das obras; Manuel Gomes da Silva, chamado de Isabelinha, que se ocupou da carpintaria; José Bernardes de Oliveira; José Fernandes de Sá e Manuel Pereira da Silva. De seguida abriu-se uma subscrição pública, na qual o Reitor resolveu oferecer os seus serviços para esta grande causa, doando o terreno necessário para a sua edificação (do passal), 2 contos e 500.000 reis; e «toda a alvenaria, transportada da sua pedraria em Vagonetas (…)»(5) Em 1887, um ano depois de terem iniciado a sua construção, as obras de pedraria e de carpintaria estavam em vias de conclusão, sendo António Sineira e Joaquim Rocha, de Grijó, os arrematantes das primeiras; ao passo que as segundas, como havíamos referido, foram coordenadas pelo Isabelinha, que tudo fez para que as obras corressem da melhor maneira possível. Quanto à cantaria que toda a igreja possui, veio toda da Quinta da Cruz, da Vila da Feira. Passado mais um ano, em 1888, deu-se por terminada a construção da torre da nova igreja, sendo colocados os três sinos da antiga, datados de 1846, nos seus respectivos campanários. E, só mais tarde, a Agosto de 1890, é que este novo edifício religioso já estaria coberto de telha, «pronta a tribuna de capela-mor, soalhado todo o templo (…), e feito o coro, com o rendimento da Mordomia de Santo Tirso»(6); acabando por ser benzido nesse mesmo ano, um mês depois. Neste mesmo dia, também aconteceu outro marco importante, a deslocação em procissão do Santíssimo Sacramento da igreja velha para esta nova. Três dias depois, pelas sete da manhã, as pessoas assistiram à sua primeira missa no novo templo, que foi celebrada pelo Reitor Sá Fernandes. A Igreja Paroquial de Paramos é um edifício de planta longitudinal da autoria de José de Maria de Lacerda, enquadrado num espaço urbano, centrado num grande adro, que fica no topo de uma colina, no qual, à frente, observamos uma pequena escadaria de acesso e um cruzeiro, datado de 1734, e a sul o cemitério (Figura 2)
       
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É uma igreja de uma só nave, que, juntamente com as duas amplas sacristias, ocupa 600 m2, sendo em termos volumétricos a nave e a capela-mor muito maiores que as sacristias, embora não se encontrem ao mesmo nível que a fachada principal. Daí constituir um edifício alto e relativamente vasto. Como uma igreja regional típica da época em que foi construída, podemos constatar que a fachada principal tem mais decoração que as fachadas laterais e do lado nascente. Estas mesmas fachadas estão completamente caiadas de branco, tendo como único motivo de decoração as rectangulares e circulares friestas que iluminam o interior. Sendo assim, a fachada principal é toda revestida por azulejo e composta por dois corpos, um rectangular e um triangular, encimados por uma torre sineira na parte central, que se destaca acima da empena e na qual se encontra um relógio. No primeiro podemos visualizar a porta principal, de madeira, sob um vitral rectangular, no qual temos inserido um desenho de uma cruz latina e que se encontra ladeado por dois nichos, o da esquerda com a imagem de S. Pedro e o da direita com a imagem de S. Paulo, duas figuras que são consideradas os pilares da Igreja. Enquanto o segundo, que corresponde ao frontão em cujo tímpano encontramos um nicho de menores dimensões que os outros dois. Neste nicho encontra-se uma escultura do padroeiro, Santo Tirso (Figura 3)
       
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No geral, esta igreja «prima pela sua amplitude, pela sua majestosa simplicidade, pela harmonia das suas linhas arquitectónicas e pela sua solidez»(7)
       
Descrição do interior 
       
A Igreja de Santo Tirso de Paramos, interiormente, é composta por uma nave única e por uma capela-mor. Muito recentemente, alguns objectos deste seu interior, como por exemplo os retábulos, foram restaurados ou estão a ser alvos de restauro (Figura 4).
       
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À entrada, para além do guarda-vento, temos o coro alto, que se localiza sobre este, com uma balaustrada de madeira e que está dividido em três tramos. No caso do central, temos o vitral da fachada principal. E, por fim, situado a um canto do tramo da direita, localizamos um pequeno órgão de tubos, de madeira. Quanto à nave, as paredes laterais estão decoradas por pequenas esculturas em médio relevo, que representam os passos da Paixão de Cristo; por quatro vãos rectangulares, duas em cada lado; por dois púlpitos suspensos com dosséis; por um baptistério, no lado do Evangelho; por azulejos na parte inferior; e, por fim, por seis retábulos, quatro neoclássicos (dois ornados com sanefas e dois colaterais à capela-mor) e dois levantados em cortiça. No lado do Evangelho, os retábulos neoclássicos são os do Sagrado Coração de Jesus, ladeado por Santa Maria Goretti, à esquerda, e por S. Luís Gonzaga, à direita (Figuras 5, 22, 23 e 26);
       
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e do Senhor da Agonia (Figuras 6 e 19).
       
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Ao passo que no lado da Epístola, eles correspondem aos do Sagrado Coração de Maria, ladeada por S. Sebastião, à direita, e por Santa Inês de Roma, à esquerda (Figuras 7, 20, 27 e 28)
       
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e de Nossa Senhora de Fátima (Figuras 8 e 24)
       
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Quer este, quer o do Senhor da Agonia são os retábulos colaterais à capela-mor, cuja entrada é um arco-cruzeiro ornado por uma sanefa. Quanto aos retábulos levantados em cortiça, o do Evangelho é dedicado a Nossa Senhora de Lourdes, dando a ilusão de ser a gruta na qual ela surgiu (Figuras 9 e 25)
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e o da Epístola a S. José (Figuras 10 e 21)(8) 
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No que diz respeito ao tecto da nave, este é abobadado e caiado de branco, com dois candelabros suspensos e oito pinturas estampadas, que ilustram os apóstolos. Do lado do Evangelho temos S. Matias, S. Tomé, S. Pedro e S. Bartolomeu, e do lado Epístola, S. Felipe, S. Simão, S. Paulo e S. Tiago (Figuras 11 e 12)   
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Por último, a capela-mor tem menos largura que a nave, embora continue a ser espaçosa (Figura 13)
       
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Nela podemos também visualizar azulejos na parte inferior, quatro vãos rectangulares; e, por último, um tecto do mesmo estilo que o da nave, que também tem estampado pinturas, representando os quatro evangelistas: S. Mateus e S. Marcos no lado do Evangelho e S. Lucas e S. João no lado da Epístola (Figuras 14-17)
       
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No que diz respeito ao retábulo principal, o elemento que domina a capela-mor, como todos os outros desta época, ele é composto por três partes: a inferior, que corresponde à bancada e onde existe o sacrário; a intermédia, que revela ser a maior e de grande qualidade arquitectónica, e na qual dois nichos se destacam, o da esquerda com a imagem de Santo Tirso e o da direita com a imagem de Santo António de Lisboa, a ladearem uma grande pintura central. Esta ilustra a Última Ceia com a presença do Espírito Santo sobre a forma de uma pomba, elemento que já alcança a terceira e última parte, a superior, ficando entre duas figuras femininas vestidas de rosa e azul. Também nesta zona superior, no topo, existe um tímpano semi-circular ornado por uma sanefa, cujo interior tem a imagem de um triângulo sobre uma nuvem, do qual irradiam raios luminosos. Como já havíamos referido em tópicos anteriores, esta imagem é uma alusão simbólica à Santíssima Trindade (Figuras 13, 18 e 29).
       
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(1) SÁ, Pe Manuel F. de – Monografia de Paramos. Figueira da Foz: Tipografia Popular, 1937, p. 29.   
(2) QUINTA, João – Espinho, p. 244.   
(3) As imagens (esculturas) transferidas de uma igreja para outra foram as de Santo Tirso (padroeiro), dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, de S. Caetano, de S. Francisco Xavier, do Menino Jesus, do Mártir S. Sebastião e da Senhora Aparecida.   
(4) A iniciativa de se construir uma nova igreja matriz foi tomada por alguns zeladores e zeladoras do Sagrado Coração de Jesus, que o falecido Reitor fez questão de apoiar.    
(5) SÁ, Pe Manuel F. de – Monografia de Paramos, p. 39.    
(6) SÁ, Pe Manuel F. de – Monografia de Paramos, p. 40.    
(7) SÁ, Pe Manuel F. de – Monografia de Paramos , p. 34.    
(8) As imagens centrais são de grandes dimensões, principalmente as que estão nos retábulos levantados em cortiça, enquanto que as que estão nos nichos laterais são de menor dimensão. Destas, só uma é que é excepção, a de Santa Maria Goretti, que é de média e que, por isso, nota-se que não coincide com o nicho, o que nos faz prever que esta escultura não é, originalmente, desse local.    
       
O texto original está escrito no antigo acordo ortográfico e assim será mantido. A numeração das imagens foi alterada.
Origem: Iconografia das Imagens das Igrejas Paroquiais do Concelho de Espinho;
 
Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Autora: Quintas, Diana Irene de Almeida
Setembro 2011